Please use this identifier to cite or link to this item: http://hdl.handle.net/10174/41905

Title: Tão enganador como o próprio nome: Descodificando a utilização de verde Esmeralda nos murais de Almada Negreiros | As deceiving as the name. Decoding Emerald Green use in Almada’s murals
Authors: Candeias, António
Dias, Luís
Frade, José Carlos
Costa, Mafalda
Valadas, Sara
Vandabeele, Peter
Gil, Milene
Issue Date: 2025
Publisher: Universidade de Évora - Laboratório HERCULES
Citation: A. Candeias, L. Dias, J. C. Frade, M. Costa, S. Valadas, P. Vandenabeele & M. Gil (2025). Tão enganador como o próprio nome: Descodificando a utilização de verde Esmeralda nos murais de Almada Negreiros | As deceiving as the name: Decoding Emerald Green use in Almada’s murals, Seminário final do Projeto ALMADA – Livro de Resumos | Abstract Book, Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, Lisboa, Portugal, 14 de Março 2025, 39-44 pp. Universidade de Évora – Laboratório HERCULES. ISBN: 978-972-778-450-9.
Abstract: Conhecido pela ousadia nas escolhas técnicas e cromáticas, o artista Almada Negreiros surpreende ainda hoje investigadores e conservadores. Este artigo apresenta os resultados de uma investigação interdisciplinar que incluiu análises colorimétricas, fluorescência de raios X portátil (p FRX) e observação microscópica de fragmentos. Através destas metodologias, foi possível identificar a presença do pigmento verde esmeralda em várias áreas dos murais, associada à deteção de cobre (Cu) e arsénio (As), elementos químicos característicos deste pigmento cuja fórmula química é Cu(CH₃COO)₂·3Cu( AsO ₂)₂. Este pigmento é uma substância altamente tóxica, instável e geralmente desaconselhada para pintura mural a fresco sendo por isso o seu aparecimento inesperado para os cientísticas envolvidos no projeto “ O Desvendar da Arte da Pintura Mural de Almada Negreiros (1938 1956)”. Para os historiadores de arte do projeto, no entanto, a utilização do verde esmeralda pode ser explicada pela sua paixão por esta cor. O verde esmeralda, também conhecido como verde de Schweinfurt ou verde de Paris, foi amplamente utilizado no século XIX pela sua cor vibrante e acessibilidade. Contudo, a sua elevada toxicidade levou à proibição do seu uso em brinquedos e cosméticos, sendo desaconselhado até para pintura artística a partir da década de 1930. A sua utilização por Almada nos murais levanta questões relevantes: terá sido uma escolha deliberada pelo seu impacto visual? Ou uma adição tardia, fora do planeamento inicial da obra? As análises revelaram ainda formas de degradação severas, como fragmentação das partículas, ausência de morfologia cristalina definida, hidrólise e migração de arsénio, bem como a presença de cloro indícios de transformação química profunda do pigmento no suporte mural, possivelmente acelerada pela interação com materiais incompatíveis e agentes atmosféricos. Este estudo contribui para o conhecimento técnico da obra de Almada Negreiros, desafiando ideias feitas sobre os limites da prática artística no século XX e abrindo novas perspetivas para a conservação de murais contemporâneos. Para compreender a natureza e distribuição dos pigmentos utilizados nos murais da Gare Marítima de Alcântara, recorreu se a uma abordagem multidisciplinar que envolveu técnicas analíticas complementares. O estudo colorimétrico foi conduzido através da projeção bidimensional das cores identificadas no espaço de cor CIE a*b*, permitindo caracterizar a paleta cromática em termos de tons escuros, intermédios e claros. Esta análise foi essencial para mapear visualmente as áreas de interesse para investigação química posterior. Seguidamente, foi realizada análise por fluorescência de raios X portátil (p FRX), a qual permitiu identificar elementos químicos presentes nas diferentes camadas e áreas pictóricas. As análises detetaram elementos como ferro, cádmio, cobre e, de forma particularmente relevante, arsénio sinal revelador da presença do pigmento verde esmeralda. Adicionalmente, foram examinadas amostras microestratigráficas com recurso a microscopia ótica (OM) e microscopia eletrónica de varrimento com espectrometria de raios X por dispersão de energia (SEM EDS). Estas técnicas permitiram observar a morfologia das partículas pigmentares, a sua posição nas diferentes camadas pictóricas e fenómenos de degradação. O verde esmeralda entre estética e risco As análises p FRX indicaram a presença de Cu e As em diversas áreas verdes dos murais, confirmando a utilização do verde esmeralda (Cu(CH₃COO)₂·3Cu( AsO ₂)₂), um pigmento incomum e controverso no contexto da pintura mural. Esta descoberta foi surpreendente, dado que este pigmento: • É altamente tóxico, devido ao seu teor de arsénio. • É quimicamente instável, apresentando incompatibilidades com vários materiais frequentemente usados na pintura mural (como cal, pigmentos com enxofre ou chumbo), sofre hidrólise na presença de água e reage com ácidos e bases. • Foi desaconselhado desde finais do século XIX, com restrições legais na Alemanha e noutros países europeus. Foram também identificados outros pigmentos verdes, como o viridian (baseado em crómio) e o PG8 (um pigmento sintético moderno), o que demonstra uma paleta cromática diversificada. No entanto, a escolha do verde esmeralda destaca se tanto pela sua vivacidade visual como pela complexidade que introduz na conservação. Deste modo, a sua presença nas pinturas murais levanta várias hipóteses: • Escolha estética deliberada por parte de Almada, privilegiando o impacto cromático em detrimento da durabilidade. • Adição tardia, talvez numa fase de retoques ou revisão da composição. • Influência da disponibilidade comercial, nomeadamente da casa Lefranc , cuja gama incluía pigmentos identificados na obra. Fotografias de Almada observando os esboços com cor sugerem que os verdes podem ter sido introduzidos numa fase mais avançada do processo criativo. Estado de conservação e mecanismos de degradação A observação microscópica revelou cristais esferolíticos , típicos do pigmento verde esmeralda, mas também a sua fragmentação e perda de forma definida. Foram ainda observadas: • Presença de cloro nas partículas de pigmento, em particular nas que apresentavam maior alteração. • Hidrólise evidente e migração de arsénio, que pode comprometer camadas adjacentes. • Desagregação da matriz pictórica, em particular nas zonas de cal. Estes dados apontam para processos de alteração química ativa, que podem continuar ao longo do tempo se não forem controlados. A identificação do verde esmeralda nos murais da Gare Marítima de Alcântara revela não só a complexidade das escolhas materiais de Almada Negreiros, mas também os desafios que elas colocam à conservação contemporânea. Este pigmento, marcado por uma história de controvérsia, continua a surpreender, mostrando que o cruzamento entre estética e ciência é essencial para compreender e preservar o património artístico moderno. A investigação aqui apresentada lança nova luz sobre a prática técnica de Almada e reforça a importância de estudos multidisciplinares para a história da arte e conservação.
URI: https://almadanegreiros.uevora.pt/pubs/Livro%20de%20Resumos_Semin%C3%A1rio%20Final_%20projeto%20ALMADA.pdf
http://hdl.handle.net/10174/41905
Type: article
Appears in Collections:HERCULES - Artigos em Livros de Actas/Proceedings

Files in This Item:

File Description SizeFormat
Livro de Resumos_Seminário Final_ projeto ALMADA (4).pdf599.61 kBAdobe PDFView/Open
FacebookTwitterDeliciousLinkedInDiggGoogle BookmarksMySpaceOrkut
Formato BibTex mendeley Endnote Logotipo do DeGóis 

Items in DSpace are protected by copyright, with all rights reserved, unless otherwise indicated.

 

Dspace Dspace
DSpace Software, version 1.6.2 Copyright © 2002-2008 MIT and Hewlett-Packard - Feedback
UEvora B-On Curriculum DeGois