Please use this identifier to cite or link to this item: http://hdl.handle.net/10174/42244

Title: Paris, África : Cruzeiro Seixas e o fim da Colónia
Authors: Santos, José Rodrigues dos
Keywords: Cruzeiro Seixas
Angola
Colónia
Colonialismo
Arte
Poesia
Guerra colonial
Êxodo
Issue Date: 2025
Citation: Santos, José Rodrigues dos, 2025. "Paris, África: Cruzeiro Seixas e o fim da Colónia" : 25 páginas. (Texto da conferência no Seminário “Experiências d’África de Cruzeiro Seixas: Liberdade, Colonialismo e Poesia” Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal. 6 de Fevereiro, 2025. Aceite para publicação, Outubro de 2025.
Abstract: Este texto estuda os contextos individuais e sociais em Portugal, Angola e Paris, nos quais viveu A. Cruzeiro Seixas. Pintor, amigo dos surrealistas, incapaz de encontrar lugar que o acolha de verdade em Lisboa , ou seja no Portugal dos anos 50 onde se sente "sufocar", e parte para longe. Um primeiro périplo o conduz de Portugal a Angola, Moçambique, Índia, etc., etc., e o traz, no que devia ser o regresso a Portugal, aos cais de Angola. Mas Cruzeiro não chega a África. Entre ela, desejada, fantasia de menino e jovem que mamou as imagens do Estado Novo e o andarilho, interpõe-se A Colónia. É o simulacro, é a realidade reticular, hiper-real, de uma cidade e seus pseudópodos que flutuam no tempo e pairam a distância infinitesimal, mas decisiva, da Terra: África. A Colónia é um décor, um cenário para um filme trágico cujo argumento ninguém quer ler, porque o genérico de Fim, óbvio, fatídico, comporta a evaporação repentina da Grande Ilusão. Cruzeiro permanecerá em Angola até 1963, momento em que começam a tentar recrutá-lo para as "milícias de brancos", numa guerra que é racial antes de se tornar guerra de independência. Em 1961 a guerra torna-se luta pela abolição da Colónia o que quer dizer: expulsão dos brancos, destruição do décor, evaporação do simulacro de Florida californiana. Esta destruição será, à escala histórica quase instantânea e absoluta (um ou dois anos e "nada deve ficar") o que a torna, para os viviam na e pela Colónia, definitivamente incompreensível. Sublinho, porque a incompreensão dura até hoje nos que a viveram, como só o pode ser o Fim de um (do) Mundo. Cruzeiro, desafecto a esse mundo colonial que foi dele sem o ser, parte em 1963. Tinha partido de Portugal pintor. Regressa poeta. Se a África nunca se esvai do seu corpo e da sua alma, é porque a paixão o transformou. Examino os contextos: tentativas usrrealistas no Portugal sob chapa de chumbo, desejo de evasão, fascínio por Paris. Cruzeiro escolhe, ou é escolhido pela África, que "foi o [seu] Paris". Impregnado pelo que viveu em Angola, saturado de africanidade, Cruzeiro volta a Portugal nos anons da louca mobilização guerreora. E viaja, por seu turno, para Paris. Examino com algum detalhe o contexto parisiense ao qual chega Cruzeiro. Numa visão de conjunto, comparo o Grande Périplo de Cruzeiro que se desenha em simetria o destino de Rimbaud, Rimbaud abandona de rompão Paris, Londres, os seus amores e sobretudo, definitivamente, a poesia. A África será para Rimbaud a maneira de se evadir da poesia, de se perder para sempre. O abandono da poesia é sem regresso possível, as erranças de Rimbaud e os seus retornos falhados, sem apelo. Em Cruzeiro, simetricamente, a África fez do pintor um poeta. É no longe e no terrivelmente diferente que o homem metropolitano a sufocar em Lisboa encontra o pleno impulso criador. Escreve como nunca antes, pinta, tem Áfricas em todos os poros da pele, nasceu. Regressa ao ponto de partida por fim consciente da sua via e da sua vida.
URI: http://hdl.handle.net/10174/42244
Type: workingPaper
Appears in Collections:CIDEHUS - Working Papers

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