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http://hdl.handle.net/10174/41858
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| Title: | À Procura dos Materiais Orgânicos utilizados por Almada Negreiros: O Caso de Estudo da Rocha do Conde de Óbidos |
| Other Titles: | The Quest for the Organic Materials used by Almada Negreiros. A case study of Rocha do Conde de Óbidos |
| Authors: | Manhita, Ana Dias, Cristina Frade, José Carlos Andrade, Marcus Gil, Milene |
| Editors: | Gil, Milene |
| Issue Date: | 2025 |
| Abstract: | José de Almada Negreiros (1893-1970) foi um dos principais protagonistas do modernismo português, destacando-se na literatura, nas artes gráficas e na pintura mural. Entre as suas criações mais emblemáticas encontram-se os murais executados em 1949 para a Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa. Estas pinturas, concebidas para exaltar a epopeia marítima portuguesa, representam um exemplo do uso experimental de materiais e técnicas na arte mural do século XX. A investigação sobre a constituição material destas obras tem sido fundamental para definir estratégias de conservação, sendo o estudo dos materiais orgânicos uma vertente essencial deste processo.
A documentação histórica não regista o uso de aglutinantes orgânicos na execução original da obra. O contrato menciona apenas cal e pigmentos de terra, reforçando a hipótese de que a técnica predominante foi a fresco, onde a fixação dos pigmentos ocorre por carbonatação da cal. A presença de jornadas de trabalho (giornate na terminologia italiana) também aponta nessa direção, sobretudo nas primeiras camadas de pintura realizadas pelo artista e analisadas por microscopia electrónica de varrimento com espectroscopia de raios-X de dispersão de energia (MEV-EDX).
No entanto, análises recentes por pirólise acoplada a cromatografia gasosa e espectrometria de massa (Py-GC-MS) e micro-espectroscopia de infravermelho por transformada de Fourier (µ-FTIR) revelaram vestígios de compostos lipídicos em algumas camadas, sugerindo eventuais retoques a secco com óleo ou emulsões proteicas. A identificação de biomarcadores proteicos em algumas amostras aponta para a possível utilização deste tipo de materiais, mas a sua origem e aplicação específica permanecem incertas.
Durante o exame in situ, verificou-se que várias camadas pictóricas apresentam uma superfície brilhante, algo atípico em murais realizados a fresco, que são tradicionalmente mate. Este brilho foi identificado em áreas com destacamento da camada pictórica, mas também em zonas adjacentes da mesma cor ainda em bom estado de conservação. Considerando que os murais da Rocha do Conde de Óbidos passaram por intervenções de conservação e restauro, torna-se relevante determinar se este brilho resulta de produtos aplicados em intervenções anteriores ou se está associado a técnicas ou revestimentos originais utilizados por Almada Negreiros.
As análises evidenciaram uma presença significativa de polímeros sintéticos, nomeadamente álcool polivinílico (PVA), acetato de polivinilo (PVAc) e resinas acrílicas, aplicados em campanhas de conservação posteriores. A detecção de marcadores para a presença de PVA/PVAc em várias camadas pictóricas, aponta para o seu uso extensivo como consolidante durante as intervenções de 1971 e 1979. A presença de Paraloid – provavelmente B72, dada a sua popularidade na conservação patrimonial – foi detectada numa das áreas estudadas, sugerindo que foi utilizado como adesivo ou revestimento protector.
O relatório de 1971 documenta testes com diferentes concentrações de Paraloid e Gelvatol, um polímero de álcool polivinílico, ambos diluídos em solventes como xilol, água e etanol. Estes materiais foram utilizados pela sua resistência mecânica e, no caso do Paraloid, pela sua transparência e reversibilidade. No entanto, a estabilidade óptica e química dos polímeros sintéticos varia: enquanto o Paraloid tende a manter a transparência ao longo do tempo, materiais como o PVAc apresentam maior propensão para amarelecer e tornar-se quebradiços, e o PVA pode sofrer opacificação. Além disso, a reversibilidade destes polímeros também não é uniforme, sendo o Paraloid solúvel em solventes orgânicos, enquanto o PVA e o PVAc tendem a perder solubilidade com o envelhecimento. Sabe-se que, ao longo do tempo, todos estes materiais podem sofrer degradação devido à exposição à luz, calor e factores ambientais, o que pode explicar a alteração da superfície pictórica e a perda de estabilidade em algumas áreas. A presença de determinados ácidos gordos (marcadores oleicos) em algumas áreas levanta dúvidas quanto à sua origem. Relatos de antigos conservadores-restauradores indicam que foram feitos retoques com têmperas de caseína (possivelmente também com tintas a óleo) o que pode explicar a presença desses materiais nas análises e o aspeto brilhante e oleoso de algumas das superfícies pintadas. O estudo dos materiais orgânicos nos murais da Rocha do Conde de Óbidos destaca não apenas a complexidade técnica da abordagem de Almada Negreiros, mas também a importância de compreender as intervenções passadas. A análise continuada destas pinturas murais contribuirá para um conhecimento mais aprofundado sobre a herança artística modernista portuguesa e os desafios associados à sua conservação. |
| URI: | https://almadanegreiros.uevora.pt/pubs/Livro%20de%20Resumos_Semin%C3%A1rio%20Final_%20projeto%20ALMADA.pdf http://hdl.handle.net/10174/41858 |
| ISBN: | 978-972-778-450-9 |
| Type: | article |
| Appears in Collections: | HERCULES - Artigos em Livros de Actas/Proceedings
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